quarta-feira, 7 de abril de 2010

Refúgios Químicos


Apoquentado com as ideias furadas que os amigos vinham lhe dando sobre seu problema, decidiu procurar ajuda com outras pessoas. O psiquiatra não ajudou muito, a mãe de santo foi gentil, mas também não lhe resolveu as indagas internas que tanto o afligiam. Sua mente parecia ter buracos por onde certos pensamentos escoavam e outros surgiam, como um ralo por onde desce a água da razão e sobem as baratas do delírio. Caminhava pelas ruas com a sensação de estranhamento de um animal da selva solto na cidade grande. Às vezes sentia que alguém lhe pularia sobre o pescoço, outras sentia que poderia arrancar os olhos das pessoas que o fitavam na multidão. Sentia medo de si mesmo e refugiava-se na observação das crianças. As crianças o acalmavam. Via-as brincar e sentia-se aliviado de um peso enferrujado, de uma casca fedorenta do mundo adulto que o contaminara e que ele refutava com mais contaminação. Era como nadar em um rio poluído e vomitar almoços de urubu ao mesmo tempo. Sentia-se sempre sujo, mas a visão da alegria das crianças fazia-o esquecer-se de seu próprio fedor. Sua inquietação o levava por toda a cidade, o forçava a uma interação assustada e imprevisível, uma esquizo-socialização onde as realidades pareciam não se encontrar. Apenas os corpos colidiam e os olhos revelavam sustos e apreensões. Os passos sempre se apressavam quando as pessoas o viam. Medo. Medo. Medo. Medo. Foi até a farmácia e comprou seu remédio. A prescrição amarrotada, tantas vezes usada. Aquele remédio, seqüelas dos tempos do psiquiatra. Nunca conseguira deixar as pílulas. A mãe de santo lhe dera um colar de contas. Perdera-o e sempre tinha sonhos com esse colar, com seres estranhos vindo até ele com o colar, para finalmente leva-lo para o reino da morte. Bizarro! As pessoas que o ajudaram haviam contribuído para a multiplicidade de signos de sua loucura.


Um comentário:

  1. Oi seu menino, tudo beleza?

    Hoje teve um blecaute aqui, quer dizer, dizem que em outras cidades também...sei lá! Bom, ficamos duas horas sem energia, e a Coelba não sabe a causa O.o *doidera*.
    Ri muito do seu caso com as branquinhas, as gatas, claro! Semana passada vi um gatinho atropelado, lá naquela ruazinha ao lado da cooperativa, sabe? Quando cheguei em casa e contei a Lua choramos tanto com pena do bichinho...
    Adorei ter notícias suas, também sinto saudade dos nossos papos. Fique bem!

    Beijos :)

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