quinta-feira, 29 de abril de 2010

Supermarket Death


Hoje, na fila do supermercado, vi um frango assado num pacote plástico abandonado sobre uma gôndola. Não era mais o animal, não era mais comida. Era só mais um lixo, mais um produto descartado antes mesmo de ser comercializado. Um dia aquilo fora uma criatura viva, um par de olhos mirando um mundo avassalador. Que direito tem o ser humano de submeter as criaturas a esse nível de crueldade? A indústria alimentícia não só comercializa a morte dessas criaturas inocentes, mas - o que me parece pior - impede-as de viver segundo os ditames de suas próprias naturezas. E para quê? Para alimentar quem? Não sou contra a morte nem contra a violência, apenas creio que para tudo há um merecimento. Merecem as criaturas serem torturadas e devoradas em escala industrial? Como dizia Isaac Bashevis Singer: "quando se trata de animais, toda a humanidade é nazista". Se queres comer carne, tem pelo menos a dignidade de matar com tuas próprias mãos. Somos as bestas pensantes cujo pensamento só leva à destruição ou ainda estamos no jardim de infância da evolução?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Refúgios Químicos


Apoquentado com as ideias furadas que os amigos vinham lhe dando sobre seu problema, decidiu procurar ajuda com outras pessoas. O psiquiatra não ajudou muito, a mãe de santo foi gentil, mas também não lhe resolveu as indagas internas que tanto o afligiam. Sua mente parecia ter buracos por onde certos pensamentos escoavam e outros surgiam, como um ralo por onde desce a água da razão e sobem as baratas do delírio. Caminhava pelas ruas com a sensação de estranhamento de um animal da selva solto na cidade grande. Às vezes sentia que alguém lhe pularia sobre o pescoço, outras sentia que poderia arrancar os olhos das pessoas que o fitavam na multidão. Sentia medo de si mesmo e refugiava-se na observação das crianças. As crianças o acalmavam. Via-as brincar e sentia-se aliviado de um peso enferrujado, de uma casca fedorenta do mundo adulto que o contaminara e que ele refutava com mais contaminação. Era como nadar em um rio poluído e vomitar almoços de urubu ao mesmo tempo. Sentia-se sempre sujo, mas a visão da alegria das crianças fazia-o esquecer-se de seu próprio fedor. Sua inquietação o levava por toda a cidade, o forçava a uma interação assustada e imprevisível, uma esquizo-socialização onde as realidades pareciam não se encontrar. Apenas os corpos colidiam e os olhos revelavam sustos e apreensões. Os passos sempre se apressavam quando as pessoas o viam. Medo. Medo. Medo. Medo. Foi até a farmácia e comprou seu remédio. A prescrição amarrotada, tantas vezes usada. Aquele remédio, seqüelas dos tempos do psiquiatra. Nunca conseguira deixar as pílulas. A mãe de santo lhe dera um colar de contas. Perdera-o e sempre tinha sonhos com esse colar, com seres estranhos vindo até ele com o colar, para finalmente leva-lo para o reino da morte. Bizarro! As pessoas que o ajudaram haviam contribuído para a multiplicidade de signos de sua loucura.