domingo, 30 de maio de 2010


Suetônio sempre me visitava quando voltava da cachoeira, bêbado de vinho ou cachaça. Adentrava a sala trôpego, a língua embolada mas doida para conversar. Às vezes vinha com fome, às vezes vinha chorando alguma mulher. Mas sempre vinha, bebia vinho, acabava se alegrando.

Já Soraio, que abandonara o vinho mas não abandonara as mulheres porque nunca realmente usufruíra os prazeres proporcionados pelo sexo feminino, chorava derrotas por W.O., mulheres que perdera sem nunca as haver conquistado!

Tanto Suetônio quanto Soraio pareciam se identificar com um sentimento sofrido que há nas relações amorosas (ou na ausência delas). Aquele descobriu-se amando somente quando sua parceira já o deixara. “É tarde, meu Jesus!!”. Este ama amar sozinho, fantasiar, jamais tocar e devanear, devanear...

Quando era bom-de-copo, Soraio visitava-me para embriagar-se ouvindo sua boa música e conversando. Falava muito. Ainda fala. Uma vez escutou uma mesma faixa de um cd de Zeca Baleiro mais de trinta vezes seguidas! Cantava quando bêbado. Aboiava, adorava um karaoke, um violão. Mulher bonita que tocasse violão e cantasse boa música brasileira enfeitiçava ele. Compunha-lhes poesias. Jamais tocou alguma dessas mulheres.

Suetônio, por sua vez, traçava todas as ninfetas, coroas, empregadas, garçonetes, filhinhas-da-mamãe, zarolhas e ninfomaníacas. Nesse turbilhão de vaginas e álcool, Suetônio deparou-se com uma garota que o fez sentir-se maravilhoso, mas ele não percebeu isso... O harém metamorfose-ambulante de Suetônio, por conta da tristeza que o abate, parou de girar, tal qual um carrossel sem crianças.

O vinho é o companheiro de Suetônio em sua busca por uma solidão que o console, curando sua ferida, mesmo deixando cicatriz.

A música ainda é companheira de Soraio. Soraio teima em não sair da solidão, em observar o mundo pelo pensamento de um corpo na clausura de um apartamento ou do olho-magno social, fruto da paranóia coletiva. Ele não se arrisca, não atravessa a rua de chinelos. É um bom homem, um tanto anacrônico em seus modos, “retrógrado” – Machadiano, diria o próprio Soraio, com muito para oferecer a uma mulher que tenha paciência com ele – um Imutável.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Supermarket Death


Hoje, na fila do supermercado, vi um frango assado num pacote plástico abandonado sobre uma gôndola. Não era mais o animal, não era mais comida. Era só mais um lixo, mais um produto descartado antes mesmo de ser comercializado. Um dia aquilo fora uma criatura viva, um par de olhos mirando um mundo avassalador. Que direito tem o ser humano de submeter as criaturas a esse nível de crueldade? A indústria alimentícia não só comercializa a morte dessas criaturas inocentes, mas - o que me parece pior - impede-as de viver segundo os ditames de suas próprias naturezas. E para quê? Para alimentar quem? Não sou contra a morte nem contra a violência, apenas creio que para tudo há um merecimento. Merecem as criaturas serem torturadas e devoradas em escala industrial? Como dizia Isaac Bashevis Singer: "quando se trata de animais, toda a humanidade é nazista". Se queres comer carne, tem pelo menos a dignidade de matar com tuas próprias mãos. Somos as bestas pensantes cujo pensamento só leva à destruição ou ainda estamos no jardim de infância da evolução?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Refúgios Químicos


Apoquentado com as ideias furadas que os amigos vinham lhe dando sobre seu problema, decidiu procurar ajuda com outras pessoas. O psiquiatra não ajudou muito, a mãe de santo foi gentil, mas também não lhe resolveu as indagas internas que tanto o afligiam. Sua mente parecia ter buracos por onde certos pensamentos escoavam e outros surgiam, como um ralo por onde desce a água da razão e sobem as baratas do delírio. Caminhava pelas ruas com a sensação de estranhamento de um animal da selva solto na cidade grande. Às vezes sentia que alguém lhe pularia sobre o pescoço, outras sentia que poderia arrancar os olhos das pessoas que o fitavam na multidão. Sentia medo de si mesmo e refugiava-se na observação das crianças. As crianças o acalmavam. Via-as brincar e sentia-se aliviado de um peso enferrujado, de uma casca fedorenta do mundo adulto que o contaminara e que ele refutava com mais contaminação. Era como nadar em um rio poluído e vomitar almoços de urubu ao mesmo tempo. Sentia-se sempre sujo, mas a visão da alegria das crianças fazia-o esquecer-se de seu próprio fedor. Sua inquietação o levava por toda a cidade, o forçava a uma interação assustada e imprevisível, uma esquizo-socialização onde as realidades pareciam não se encontrar. Apenas os corpos colidiam e os olhos revelavam sustos e apreensões. Os passos sempre se apressavam quando as pessoas o viam. Medo. Medo. Medo. Medo. Foi até a farmácia e comprou seu remédio. A prescrição amarrotada, tantas vezes usada. Aquele remédio, seqüelas dos tempos do psiquiatra. Nunca conseguira deixar as pílulas. A mãe de santo lhe dera um colar de contas. Perdera-o e sempre tinha sonhos com esse colar, com seres estranhos vindo até ele com o colar, para finalmente leva-lo para o reino da morte. Bizarro! As pessoas que o ajudaram haviam contribuído para a multiplicidade de signos de sua loucura.


segunda-feira, 15 de março de 2010

Lá na Bahia as tardes eram mágicas

O vento é o sussurro do tempo
A luz é o deleite do universo
O olho é o gozo do efêmero...

quinta-feira, 4 de março de 2010

Oficina Brennand

O silêncio das culturas mortas
Nenhum vento sopra seus murmúrios
Nenhuma árvore range seus estertores
A moeda dos conquistadores
É a única face
Sangue antigo tragado pela terra
Saberes ancestrais cremados...